A integração sensorial e a terapia ocupacional ampliam o impacto da psicologia no acompanhamento terapêutico (AT). Entenda como essas práticas fortalecem o cuidado de pessoas neurodivergentes de forma mais integrada e eficaz.
A psicologia que se propõe a acompanhar sujeitos no território da vida não pode ser feita apenas de testes, diagnósticos e interpretações, ela precisa também ser feita de presenças.
E presença, nesse contexto, significa estar inteiro diante do outro, reconhecendo que nem tudo o que importa será dito. Muitas vezes, o essencial se manifesta no corpo.
Em como ele reage ao toque, à luz, ao som, em como ele evita ou busca determinadas sensações, em como ele sustenta ou não o contato com o mundo.
É por isso que falar de integração sensorial no acompanhamento terapêutico (AT) é uma urgência ética. Ainda mais quando o cuidado se dirige a pessoas neurodivergentes, cujas formas de sentir e perceber o ambiente desafiam os modelos lineares de desenvolvimento e exigem, do profissional, uma escuta que vá além da linguagem verbal.
Sentir para cuidar é, nesse sentido, uma tecnologia de escuta.
Sumário
O que é integração sensorial e por que ela importa na clínica

A integração sensorial é um processo neurológico fundamental: trata-se da capacidade do sistema nervoso central de receber, interpretar e organizar os estímulos sensoriais que chegam do corpo e do ambiente.
Quando esse processo ocorre de forma harmônica, somos capazes de responder ao mundo com relativa estabilidade. Mas quando há disfunções nesse sistema, as respostas tendem a ser desproporcionais, inesperadas ou mesmo desorganizadas.
Isso é particularmente importante no contexto da neurodivergência, uma vez que todos os dias, nossos sistemas sensoriais captam milhares de estímulos: sons, luzes, texturas, cheiros, gravidade, movimentos. Esses dados chegam ao cérebro que, por sua vez, os organiza, interpreta e responde física e emocionalmente.
Quando esse processo acontece de maneira fluida, o indivíduo consegue se autorregular, manter atenção, aprender e interagir com o ambiente de forma funcional. No entanto, quando há dificuldades na integração dessas informações, o impacto é mais profundo e o mundo deixa de ser compreensível.
As respostas tornam-se desproporcionais e a vida cotidiana se enche de ruídos invisíveis que ninguém vê, mas que a pessoa que é afligida por eles sente com intensidade.
Como o AT pode ajudar
No AT, onde o cuidado acontece em ambientes vivos – casa, escola, rua, comunidade -, essas disfunções sensoriais se tornam mais visíveis. É ela que nos ajuda a entender por que uma criança cobre os ouvidos diante de sons comuns, por que um adolescente parece agitado em excesso, ou por que alguém entra em colapso em espaços públicos movimentados.
O comportamento deixa de ser interpretado como birra e distração e passa a ser lido como uma tentativa de regulação frente a um mundo que está constantemente exigindo mais do que o corpo pode processar.
A integração sensorial oferece, portanto, um novo código para ler essas expressões. Um código que não nega a subjetividade, mas a reconstrói a partir do corpo vivido.
Abaixo, alguns pontos fundamentais para compreender como a integração sensorial influencia a vida e o cuidado clínico:
- A integração sensorial é o processo neurológico que organiza as informações captadas pelos nossos sentidos. Ela permite que o cérebro transforme dados sensoriais em respostas organizadas e apropriadas, como manter o equilíbrio, perceber o espaço, controlar a força muscular e lidar com o toque e o som de forma funcional.
- Quando há disfunção sensorial, o corpo responde de forma desregulada. Isso pode significar hipersensibilidade (quando tudo é demais), hipossensibilidade (quando nada parece ser sentido com clareza) ou busca sensorial desorganizada (quando o sujeito procura estímulos de forma intensa e desconexa).
- Esses padrões sensoriais afetam diretamente o comportamento, o humor e as relações sociais. Crianças com disfunção de processamento sensorial podem demonstrar aversão a roupas, dificuldade em permanecer sentadas, agressividade aparente ou cansaço extremo após situações cotidianas.
- Na clínica, isso exige intervenções individualizadas e, muitas vezes, a construção de um plano terapêutico em parceria com terapeutas ocupacionais especializados em integração sensorial. O psicólogo que ignora esse aspecto corre o risco de interpretar sintomas como questões emocionais isoladas, perdendo o núcleo do cuidado necessário.
Esse entrelaçamento de práticas também exige uma postura clínica ativa e aberta à diversidade de referenciais teóricos. Em um campo como o Acompanhamento Terapêutico, em que não existe uma única forma “correta” de cuidar, o que mais importa é o comprometimento com o sujeito e a responsabilidade clínica de sustentar escutas plurais. É justamente essa provocação que trabalhamos no texto “Existe a melhor abordagem para o acompanhamento terapêutico?”, uma leitura essencial para quem busca se posicionar de forma ética diante da complexidade do cuidado.
AT e a clínica em movimento: quando o cuidado acontece no mundo

O acompanhamento terapêutico é, por definição, uma prática que desloca a psicologia de seu lugar convencional. Ele tira o terapeuta da segurança do consultório e o coloca diante da realidade nua da vida do sujeito.
A partir disso entendemos que a escuta acontece no trânsito das relações, nas rotinas do cotidiano, nas interações familiares, nos enfrentamentos sociais.
Nesse trânsito, o corpo deixa de ser objeto de avaliação e se torna território de intervenção.
O psicólogo que acompanha uma criança autista em uma ida ao mercado precisa observar muito mais do que a fala: precisa ler as microexpressões faciais, os movimentos repetitivos, a tensão muscular, os gestos de evitação.
Esses sinais dizem muito sobre o quanto o ambiente está sendo processado ou não por aquele sistema sensorial.
O papel da Terapia Ocupacional na clínica interseccional

A Terapia Ocupacional desde sua origem parte de um princípio simples, mas radical: o sujeito se constitui a partir de suas ações no mundo.
O que ele faz, o que ele sente ao fazer, como organiza seu cotidiano, como lida com os objetos, com o tempo e com o espaço – tudo isso é matéria clínica. Na prática, isso significa que cuidar é escutar a história de um paciente e observar com atenção e técnica como esse corpo se movimenta entre as demandas da vida, que barreiras enfrenta e que estratégias encontra (ou não encontra) para sustentar sua própria existência de modo minimamente habitável.
No contexto do Acompanhamento Terapêutico, essa perspectiva ganha uma potência particular, o terapeuta ocupacional, inserido no cotidiano da pessoa, observa aquilo que muitas vezes passa despercebido na clínica tradicional.
Trata-se de identificar dificuldades e de entender de onde elas emergem: uma criança que “não consegue escrever” pode estar sentindo dor na mão ao segurar o lápis; um adolescente que “não presta atenção” na aula pode estar tentando lidar com um ambiente sensorialmente insuportável; um adulto com histórico de fracassos profissionais pode, na verdade, nunca ter encontrado um modo funcional de organizar sua rotina diária.
Colaboração entre psicólogos e a terapia ocupacional
A colaboração entre psicologia e terapia ocupacional nesse território é muito mais do que complementar, ela é essencial porque há sofrimentos que não se decodificam na linguagem verbal. Eles se expressam no gesto interrompido, no padrão de sono fragmentado, na escolha do lugar onde a pessoa senta em um transporte público.
São sinais sutis, porém potentes, de que algo no modo de viver precisa ser reorganizado.
É aqui que a atuação da TO se mostra vital: ela contribui para transformar a clínica em um espaço de ação concreta. O cuidado se torna visível quando o profissional ajuda a modular estímulos, adapta a disposição dos móveis em uma casa, sugere texturas mais confortáveis para a roupa do paciente, ensina maneiras mais eficientes de transitar de uma atividade para outra.
Essas mudanças, aparentemente pequenas, têm impacto profundo na experiência cotidiana, especialmente quando falamos de sujeitos neurodivergentes, cujos sistemas sensoriais demandam ajustes finos e constantes.
Além disso, a TO convida toda a equipe a um exercício de humildade: reconhecer que o sofrimento não está apenas na fala, mas também no corpo, na tarefa, na rotina. E que muitas vezes, o que impede o sujeito de viver melhor não é uma questão psicológica no sentido estrito, mas um obstáculo prático que pode ser reconfigurado com o suporte certo.
A prática interseccional, portanto, exige escuta e movimento.
Nenhum saber é suficiente em si mesmo e é no entrelaçamento das áreas – quando o psicólogo escuta o corpo e o terapeuta ocupacional escuta a história – que o cuidado se torna mais ético, mais sensível, mais inteiro.
Exemplos de como a Terapia Ocupacional amplia a intervenção no AT:
- Modulação de estímulos sensoriais: o terapeuta ocupacional pode sugerir estratégias para reduzir a sobrecarga sensorial em ambientes públicos, como o uso de abafadores de som, óculos com filtros de luz, ou mesmo horários alternativos para saídas em locais movimentados.
- Criação de rotinas estruturadas e adaptáveis: organização do dia a dia com base nas capacidades reais da pessoa, respeitando seus ritmos e limites, mas também propondo pequenos desafios que favorecem o desenvolvimento da autonomia.
- Adaptação do ambiente físico e simbólico: desde reorganizar um quarto para que a criança consiga brincar com mais conforto, até propor modos diferentes de estruturar um espaço de estudo, levando em consideração as distrações sensoriais presentes.
- Análise ocupacional das atividades cotidianas: observação minuciosa de como o sujeito realiza tarefas básicas como se alimentar, se vestir ou se locomover, com o objetivo de encontrar entraves e construir soluções funcionais.
- Educação para a família e cuidadores: orientação direta sobre como facilitar a participação da criança nas atividades, sem gerar dependência excessiva, mas também sem expô-la a estressores que poderiam ser evitados.
Integrar a Terapia Ocupacional à prática clínica do AT é uma necessidade urgente em um cenário onde a complexidade dos sujeitos exige múltiplos olhares e formas diversas de cuidado. O psicólogo que se abre a esse diálogo se fortalece e o sujeito acompanhado ganha acolhimento e ferramentas reais para reorganizar sua experiência de mundo e com melhor qualidade de vida.
Psicologia que sente

Na formação tradicional, psicólogos são preparados para escutar com atenção às palavras, às narrativas, aos símbolos que emergem da fala. Essa escuta é essencial e segue sendo um pilar da clínica.
No entanto, quando falamos do cuidado com pessoas neurodivergentes, especialmente no campo do Acompanhamento Terapêutico, essa escuta precisa ser ampliada.
Nem todo sofrimento se expressa em palavras, muitas vezes, ele se revela em gestos, recusas, silêncios e reações físicas ao ambiente. Uma criança que hesita em entrar numa sala de aula barulhenta pode estar sinalizando um limite sensorial, não necessariamente um exemplo de mal comportamento. Um adolescente que evita o toque pode estar se protegendo de uma experiência tátil desconfortável, e não se afastando do afeto.
A sensibilidade do profissional é essencial
Essas informações não aparecem nas primeiras entrevistas ou nos protocolos padronizados da clínica, elas se manifestam no cotidiano, e é nesse cotidiano que o psicólogo precisa estar atento, disponível e mais sensível em relação a esse paciente.
Isso exige uma postura clínica que vá além da escuta simbólica: uma escuta que também observa, sente, compartilha a experiência com o outro.
Esse tipo de presença não enfraquece a clínica, ao contrário, a fortalece. Ela torna o trabalho mais ajustado à realidade, mais ético e mais comprometido com quem se é, do jeito que se é. Uma clínica que sente, antes de tudo, é uma clínica que respeita o sujeito em sua totalidade.
Fortalecer a clínica, nesse contexto, também é fortalecer o vínculo que precisa estar enraizado em abordagens que acolham o corpo, o tempo e a linguagem do sujeito. Em “Vínculo no acompanhamento terapêutico com DIR, Son-Rise e TEACCH”, refletimos sobre como diferentes modelos estruturados podem ser aliados nesse processo, sem sufocar a singularidade de cada encontro clínico. Vale a leitura para quem deseja explorar o impacto das abordagens no cultivo de vínculos mais potentes.
A Braine e o compromisso com práticas clínicas expandidas
Na Braine nosso compromisso com a neurodiversidade vai além da criação de tecnologias, o que nos move é a crença de que o cuidado só pode ser transformador quando parte da escuta profunda da experiência humana em todas as suas formas, corpos e ritmos.
Por isso, incentivamos a integração entre psicologia, terapia ocupacional, pedagogia, fonoaudiologia e outras áreas do conhecimento com o auxílio da inteligência artificial. Sabemos que o mundo é complexo demais para ser cuidado por uma única lente e que a potência de um profissional está justamente em sua disposição para aprender, colaborar e experimentar novas formas de escutar.
Nossos produtos e programas são construídos com base nessa visão: uma clínica que sente, pensa e age com responsabilidade, rigor e empatia.
Porque cuidar da neurodivergência é um posicionamento ético diante da vida e da sociedade como um todo.
AURA-T: O produto que veio para mudar a prática clínica
O AURA-T é uma ferramenta de triagem pré-diagnóstica desenvolvida pela Braine para tornar a identificação do autismo mais acessível e ágil à realidade brasileira. Com base em protocolos reconhecidos internacionalmente e adaptada à escuta clínica, a plataforma cruza dados comportamentais, informações contextuais e indicadores subjetivos para apoiar o profissional em sua análise.
No contexto do AT, o AURA-T funciona como um recurso complementar que ajuda o psicólogo a organizar impressões clínicas, sustentar hipóteses de encaminhamento e refletir sobre padrões de comportamento observados fora do consultório.
Se trata de um suporte ético e responsivo que amplia a precisão e fortalece o protagonismo clínico na construção de cuidados individualizados.
Vem transformar a prática clínica com a Braine!
Se você acredita que o cuidado em saúde mental pode ser mais acessível, ético e centrado na experiência real do sujeito, o momento de agir é agora. A Braine está abrindo caminhos para um novo modelo de escuta e intervenção, e você pode fazer parte disso de forma ativa.
Conheça o AURA-T e se torne um dos nossos beta testers a participar da fase de testes do AURA-T, cocriando conosco uma ferramenta que poderá impactar milhares de vidas.
Além disso, entre os dias 4 e 8 de agosto, estaremos no II Encontro de Informação e Saúde: Neurodiversidade 2025, com debates que pensam o futuro do cuidado sob uma perspectiva interdisciplinar. Será uma oportunidade única de troca, aprendizado e construção coletiva com profissionais que, assim como você, não se acomodam com o que já existe.
Porque transformar o cuidado começa por quem se dispõe a sentir, escutar e agir de outro jeito. E esse futuro precisa da sua presença.