Morango do amor e a seletividade alimentar no espectro autista

O morango do amor vai além da metáfora, ele é um código que revela os bastidores da seletividade alimentar no autismo. Entenda os desafios sensoriais por trás da recusa e descubra como a Braine é capaz de mudar a sua relação com a comida.

A seletividade alimentar é um fantasma que assombra milhões de famílias. Ela se manifesta de forma sutil, com uma recusa aparentemente sem sentido, ou de forma brutal, com crises de choro e de raiva na mesa de jantar. Por muito tempo, a sociedade, em sua ignorância, classificou esse comportamento como “birra”, “manha” ou “falta de limites”.

Eu, na minha jornada de liderança, precisei entender que essa visão é não apenas cruel, mas profundamente falha.

A seletividade alimentar, especialmente em crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), não é uma escolha de comportamento, mas uma manifestação de uma mente que processa o mundo de forma diferente.

O morango do amor se torna, nesse contexto, a metáfora perfeita.

O que para a maioria é apenas um docinho da moda, um alimento que representa a doçura e o cuidado, para um cérebro neurodivergente pode ser um enigma, um obstáculo intransponível, um “não” que não é um ato de rebeldia, mas um código de comunicação.

A Braine acredita que, para construir a inclusão, precisamos primeiro decifrar esses códigos, compreendendo que a seletividade alimentar não é um problema de comportamento, mas uma linguagem sensorial que exige ser ouvida.

O que a ciência nos diz sobre a seletividade alimentar

O morango do amor é um convite: ou você morde de olhos fechados ou recusa com a mesma intensidade.
O morango do amor é um convite: ou você morde de olhos fechados ou recusa com a mesma intensidade.

Quando falamos em seletividade alimentar, não estamos discutindo um simples capricho infantil ou um momento passageiro de resistência à comida. Estamos falando de um fenômeno real, mensurável e profundamente enraizado na experiência sensorial de quem vive no espectro autista. E é justamente aqui que entra o morango do amor como um código que ajuda a decifrar comportamentos que, à primeira vista, parecem incompreensíveis.

O artigo “Seletividade alimentar em crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista”, de Lilia Schug de Moraes et al., é um marco nessa discussão. A pesquisa teve como objetivo caracterizar a seletividade alimentar nesse público, e seus resultados não deixam espaço para interpretações simplistas: a maioria (53,4%) da amostra avaliada apresentou seletividade alimentar, marcada principalmente por fatores e aspectos sensoriais. Não se trata apenas de gosto pessoal; trata-se de como o cérebro interpreta texturas, aromas, cores e temperaturas, construindo barreiras ou pontes entre o indivíduo e o alimento.

Essa conclusão é corroborada por publicações como a RASBRAN — Revista da Associação Brasileira de Nutrição — que reforça: precisamos abandonar os mitos.

A seletividade alimentar não é preguiça, teimosia ou má criação.

É ciência.

É fisiologia.

É neurologia aplicada ao prato.

E é nesse contexto que o morango do amor ganha força como metáfora viva: um alimento que pode ser amado por uns, detestado por outros, e que carrega em si uma narrativa sensorial tão poderosa que se torna símbolo de toda a complexidade do comer seletivo.

A seletividade alimentar é definida por Moraes et al. como um conjunto de características distribuídas em três domínios distintos, cada um com impactos significativos no desenvolvimento nutricional e social da pessoa:

  • Recusa alimentar: trata-se da negação sistemática de consumir determinados alimentos. Isso não se limita a um “não gosto” superficial. No caso das crianças com TEA, essa recusa pode estar ligada a estímulos como textura, temperatura, cheiro, cor e até mesmo ao som produzido durante a mastigação. O estudo mostra que frutas e vegetais estão entre os alimentos mais recusados — e aqui entra o morango do amor como exemplo simbólico. Não é a doçura ou a aparência vibrante que garantem a aceitação; muitas vezes, é exatamente essa intensidade sensorial que provoca rejeição. O toque das sementes na língua, o suco escorrendo, a combinação de maciez e firmeza… cada detalhe pode ser um gatilho para recusar o alimento.
  • Repertório alimentar limitado: refere-se ao consumo de uma variedade extremamente pequena de alimentos. Segundo a pesquisa, crianças seletivas consomem, em média, apenas 17 tipos diferentes de alimentos — um número alarmantemente baixo quando comparado à diversidade alimentar considerada saudável. Isso significa que todo o aporte nutricional da criança é sustentado por um conjunto restrito de opções, o que compromete diretamente a ingestão adequada de vitaminas, minerais e fibras. O morango do amor, aqui, poderia ser um caso raro: um alimento amado e consumido com frequência, mas que não resolve sozinho o problema da limitação nutricional.
  • Alta frequência de um único alimento: caracteriza-se pelo consumo repetitivo de um mesmo alimento, mais de quatro ou cinco vezes ao dia. Esse padrão revela um vínculo de segurança e previsibilidade — o alimento escolhido representa um território sensorial conhecido, livre de surpresas. No imaginário, o morango do amor poderia ser esse alimento constante, não pela carga poética do nome, mas pela sensação de controle e conforto que oferece. No entanto, essa repetição não garante variedade nutricional e, com o tempo, pode levar a deficiências.
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A prevalência dessa condição é, de fato, alarmante: não estamos falando de uma minoria estatística isolada, mas de uma maioria silenciosa que enfrenta diariamente desafios à mesa de jantar. Quando mais de 50% de uma amostra apresenta seletividade alimentar, não é mais possível tratar o tema como curiosidade clínica — trata-se de uma questão de saúde pública.

Na Braine, nós olhamos para esses números com a mesma seriedade com que olhamos para qualquer outro dado epidemiológico relevante. Para nós, eles não são apenas estatísticas: são histórias, vivências, desafios e oportunidades de transformação. É por isso que acreditamos que compreender o morango do amor é compreender a seletividade alimentar em sua essência — e que só assim poderemos criar estratégias inovadoras que devolvam às mesas de jantar o lugar de afeto, nutrição e inclusão que elas merecem.

Além do paladar: a revolução da sensorialidade na mesa

A recusa alimentar, especialmente no contexto do Transtorno do Espectro Autista, não pode ser reduzida à simples ideia de “não gostar” de determinado prato. Pesquisas recentes revelam que, para mais da metade das crianças e adolescentes com TEA, a seletividade alimentar está profundamente relacionada a fatores sensoriais complexos, que envolvem não só o sabor, mas uma série de estímulos capazes de provocar desconfortos intensos e, por vezes, incapacitantes.

Ao olhar mais de perto os dados apresentados, percebe-se que o odor dos alimentos é o principal fator de recusa para 56,4% dessa população, seguido de perto pela textura, que interfere na aceitação alimentar para 53,9%, e pela aparência, que impacta 53,8% dos casos. Esses números não são meros dados frios; eles ilustram um cenário real de uma verdadeira batalha sensorial travada diariamente na hora das refeições. A criança ou adolescente não está apenas escolhendo rejeitar um alimento: está reagindo a estímulos que, para ela, podem ser profundamente desconfortáveis ou até mesmo dolorosos.

É importante compreender que essa experiência sensorial atípica transforma a alimentação em um desafio multifacetado, onde cada aspecto do alimento — sua temperatura, cor e forma de apresentação — exerce um papel decisivo na aceitação ou rejeição. Para muitos, a textura de uma fruta com sementes, a acidez de um vegetal ou a forma irregular de um prato podem ser barreiras insuperáveis.

Por isso, a mesa de jantar deixa de ser um simples espaço de nutrição para se tornar um território complexo de negociação e adaptação, onde cada estímulo sensorial precisa ser compreendido e respeitado.

A Braine defende que não podemos mais encarar essas recusas como simples caprichos ou birras — elas são uma manifestação legítima da relação singular que o indivíduo neurodivergente estabelece com o mundo ao seu redor.

Assim, o que parecia ser apenas um problema de alimentação revela-se, na verdade, uma revolução silenciosa na maneira como entendemos a sensorialidade na neurodiversidade. É essa compreensão que permite que avancemos na construção de ambientes inclusivos e acolhedores, que respeitem as necessidades únicas de cada pessoa.

E, nesse contexto, o morango do amor se transforma em uma poderosa metáfora: um alimento que, apesar de sua doçura e aparente simplicidade, pode esconder camadas de sensações tão complexas que exigem que escutemos com atenção o que está por trás da recusa — um verdadeiro convite para decodificar o universo sensorial que a seletividade alimentar revela.

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A mesa como campo de batalha: o peso emocional da seletividade

A child with autism in glasses sits on the sofa and sad, hug a s
Seletividade alimentar não é frescura: é o corpo e o cérebro negociando segurança.

A seletividade alimentar ultrapassa, e muito, os limites da nutrição.

Ela carrega consigo um fardo emocional colossal, que não afeta apenas quem vive essa experiência diretamente, mas reverbera em todo o núcleo familiar.

A mesa de jantar — que deveria ser o epicentro da conexão, do afeto e da celebração do alimento —, em muitas casas, torna-se um verdadeiro campo de batalha, onde a tensão se materializa em frustrações silenciosas, olhares de incompreensão e um estresse constante que corrói os momentos de convivência.

Essa luta cotidiana, embora muitas vezes invisível para quem observa de fora, é palpável para quem a vivencia. Eu acredito com veemência, que para realmente avançarmos rumo a uma sociedade verdadeiramente inclusiva, é imperativo que reconheçamos e curamos essa ferida emocional aberta nas famílias.

Não se trata apenas de garantir nutrientes ou variar o cardápio; trata-se de criar espaços onde o respeito às diferenças sensoriais e emocionais possa florescer, e onde o alimento deixe de ser um motivo de conflito para se tornar um instrumento de acolhimento e fortalecimento dos vínculos humanos.

É preciso entender que o desafio da seletividade alimentar é também um desafio do afeto — um labirinto onde pais e filhos tentam, com esforços desiguais, encontrar caminhos que os levem à harmonia e à compreensão mútua. Esse peso invisível, carregado de expectativa e medo, molda as relações ao redor da mesa e, por consequência, a dinâmica familiar como um todo.

O morango do amor: a metáfora do cuidado rejeitado

O “morango do amor” — essa iguaria que ganhou as redes sociais nas últimas semanas, com seu morango envolto em brigadeiro e coberto por uma calda vermelha brilhante — virou mais do que uma simples sobremesa da moda.

Ele se transformou em uma metáfora contundente para o dilema enfrentado por muitas famílias na hora da alimentação.

Assim como o doce parece irresistível para muitos, mas nem sempre é aceito por todos, especialmente por crianças com sensibilidades sensoriais, o cuidado oferecido pelos pais muitas vezes esbarra em barreiras invisíveis que os olhos não conseguem ver.

Esse doce, com sua combinação doce e visual atraente, simboliza o esforço cuidadoso, o carinho e a intenção genuína que acompanham o ato de alimentar quem amamos. Mas, para muitos, o “morango do amor” é rejeitado — não por falta de afeto, mas porque os sentidos percebem algo diferente, desconfortável, que vai além do sabor.

O brigadeiro pode parecer uma textura estranha, a calda pode ter um aroma intenso demais, e a aparência pode despertar resistências inexplicáveis.

Assim, o morango do amor, além de uma sobremesa, torna-se uma poderosa imagem para ilustrar a complexidade do cuidado que é oferecido, mas que, muitas vezes, esbarra na incompreensão silenciosa das diferenças sensoriais e emocionais.

É o retrato do amor que, mesmo cheio de boas intenções, precisa aprender a se comunicar e a ser recebido na linguagem da neurodiversidade.

A solidão do cuidador: desafios nutricionais e o estresse parental

Concept of autism, memory loss, dementia and alzheimer awareness, world mental health day.
Para quem vive a seletividade alimentar, cada prato é um território desconhecido — e nem sempre seguro.

A seletividade alimentar imposta pelas peculiaridades neurodiversas vai muito além de uma simples recusa alimentar.

Ela se transforma em um desafio nutricional profundo e multifacetado, que impacta não apenas a criança, mas reverbera por todo o núcleo familiar, sobretudo sobre aqueles que estão na linha de frente do cuidado: os cuidadores. Essa luta silenciosa, muitas vezes invisibilizada, é marcada por uma série de obstáculos que atravessam o campo físico, emocional e social, configurando um cenário que exige atenção urgente, empatia genuína e intervenções estruturadas.

A preferência por alimentos padronizados, como arroz, feijão, batata frita e bolachas — itens frequentemente citados como os “preferidos” em estudos científicos — expõe o risco concreto de uma alimentação inadequada. Embora pareçam escolhas simples, confortáveis e práticas para quem cuida, esses alimentos, apesar de populares, são insuficientes para garantir uma nutrição equilibrada e completa, abrindo caminho para desequilíbrios metabólicos, deficiências de vitaminas e minerais, e o preocupante quadro do excesso de peso que atingiu quase metade das crianças avaliadas em pesquisa, com 42,5% apresentando sobrepeso.

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O dado, por si só, é alarmante e aponta para a necessidade de olhar a seletividade alimentar não apenas como um problema comportamental, mas como uma questão complexa que demanda estratégias nutricionais especializadas. Curiosamente, a pesquisa não encontrou uma relação estatisticamente significativa entre seletividade alimentar e excesso de peso, um ponto que reforça a singularidade desse fenômeno e a urgência de aprofundar o conhecimento para criar abordagens cada vez mais eficazes.

O peso emocional da solidão do cuidador

A solidão do cuidador é talvez um dos aspectos mais devastadores dessa equação. No âmago do cuidado reside um isolamento emocional intenso. A sensação de estar sozinho, sem um manual, sem apoio ou orientação adequada, pesa como uma pedra no peito. Familiares se veem frequentemente perdidos, enfrentando diariamente a incerteza e a angústia de não saber como agir, como intervir, ou até mesmo como compreender aquela recusa que parece inexplicável.

O impacto desse isolamento é corrosivo: o estresse parental aumenta, a sensação de impotência se instaura, e a rotina de alimentação, que deveria ser um momento de conexão e nutrição, transforma-se em um campo de tensão e desgaste emocional. O artigo que embasa essa reflexão enfatiza a necessidade urgente de um acompanhamento nutricional individualizado, que não seja apenas técnico, mas profundamente humano, capaz de reconhecer as especificidades da neurodiversidade e das experiências vividas pela criança e sua família.

A Braine como ponto de apoio: construindo um ecossistema de cuidado e empoderamento

A Braine se posiciona no epicentro desse desafio, não apenas como provedora de informação científica confiável, mas como uma rede de apoio integral que rompe o silêncio da solidão. Sabemos que o cuidador precisa de mais do que dados: precisa de ferramentas, de voz, de pertencimento. É nesse espaço que construímos um ecossistema onde o conhecimento se transforma em ação, e a empatia em força para enfrentar a complexidade da seletividade alimentar.

Nosso compromisso é com a humanização do cuidado, oferecendo caminhos que capacitam famílias a lidar com as dificuldades nutricionais sem perder a esperança, ampliando o diálogo entre profissionais, cuidadores e crianças, e promovendo intervenções que respeitam as particularidades sensoriais e emocionais de cada indivíduo. A transformação começa quando entendemos que o desafio da seletividade não está isolado na recusa do alimento, mas na falta de suporte e compreensão àquele que cuida, na ausência de redes que acolham e fortaleçam.

Neste sentido, a Braine acredita que curar essa ferida da solidão do cuidador é o primeiro passo para construir um futuro onde a alimentação seja fonte de saúde, conexão e inclusão verdadeira, uma mesa que deixa de ser campo de batalha e se torna um espaço de acolhimento e transformação

O futuro não é sobre o que se come, mas sobre como se entende

A Braine acredita que o futuro da seletividade alimentar não é sobre o que se come, mas sobre como se entende o porquê da recusa. Nossa missão é criar um ecossistema que empodere profissionais e famílias com as ferramentas necessárias para:

  • Decifrar a linguagem sensorial: Identificar os gatilhos sensoriais (textura, cor, odor) que levam à recusa e desenvolver estratégias para superá-los de forma gradual e respeitosa.
  • Criar planos nutricionais individualizados: O artigo “Seletividade alimentar em crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista” reforça a importância de um acompanhamento nutricional individualizado e da realização de novos estudos que avaliem e descrevam as principais características da seletividade alimentar para aprimorar a intervenção dietética. A Braine é a tecnologia que torna essa individualização escalável e acessível.
  • Transformar a mesa de jantar: A nossa visão é de um futuro onde a mesa de jantar não seja mais um campo de batalha, mas um espaço de afeto, de conexão e de alegria. É um futuro onde o morango do amor não é rejeitado, mas compreendido e, talvez, um dia, aceito.

Conheça o blog da Braine: ideias rebeldes para um futuro mais humano

Se você chegou até aqui, é porque sabe que inclusão não se faz com boa vontade — se faz com conhecimento, atitude e escuta. No nosso blog, mergulhamos fundo em temas como neurodiversidade, saúde mental, inovação e tecnologia inclusiva. Tudo isso com uma linguagem acessível, crítica e com aquele toque de rebeldia que move a Braine.

Lá você encontra reflexões provocativas, guias práticos e análises que desafiam o senso comum. É conteúdo feito para quem quer pensar diferente — e agir diferente.

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